O Prazer no Desprazer

O Prazer no Desprazer

Para conseguir reconverter a energia vital (sexualidade) distorcida, será preciso encarar de frente a maldade, na intenção de enxergar a dor que ela esconde e vive-la novamente, mas de modo consciente, a fim de integra-la de uma vez por todas. Esse é o caminho de volta para casa, ou seja, de volta para si mesmo.
Um boa pista dentro dessa proposta de estudo é observar as situações negativas que se repetem no decorrer da sua história. Se uma situação desagradável se repete, provavelmente, existe uma relação disso com o momento em que a energia vital foi distorcida dentro de você. Esse bloqueio da energia gera o que na psicologia chamamos de “fixação”, ou seja, a psique fica fixada nesse ponto e isso funciona como um imã que atrai essas situações. Então, quando menos se espera, você cai novamente no mesmo buraco. Se você procurar, você encontrará nesses episódios os mesmos elementos do momento do bloqueio da energia. Ou seja, eles são uma reedição do momento original, no qual você foi excluído, humilhado ou rejeitado. E como já vimos, isso ocorre porque existe uma esperança de que a cena seja diferente.
Isso é o que tenho chamado de “circulo vicioso do sadomasoquismo”. Como a palavra diz, trata-se de um círculo vicioso em que existe prazer em machucar e ser machucado, ou seja, a maldade é direcionada para o outro, mas também para si mesmo. Isso porque no momento em que a energia vital é distorcida e passa a se mover em direção à destruição, o prazer se conecta ao sofrimento. Esse é um aspecto da psique humana que costuma ser de difícil compreensão. Para muitos, isso pode parecer uma verdadeira loucura. Porque, em princípio, todos querem saúde, paz, prosperidade e alegria. Mas por que para alguns é tão difícil realizar esses desejos? Por que as situações negativas continuam sem que aparentemente tenham controle sobre elas? O que ocorre é que desconhecem a existência do prazer no sofrimento.
O exemplo mais fácil para ajudar na compreensão desse conceito é a insistência de algumas pessoas em permanecer em relações negativas, nas quais elas constantemente experimentam o sofrimento. Algumas pessoas só conseguem sentir prazer em situações negativas, como ao rejeitar ou ao serem rejeitadas. O que mantem o sofrimento é o prazer que têm nele, mas elas não percebem isso. Esse prazer, na maioria das vezes, é associado a uma vingança. Certa vez, numa dinâmica de cura, um homem entrou em catarse. Ele estava vivendo um momento muito difícil na vida: embora fosse excelente profissional, com potencial reconhecido por muitos, ele não conseguia trabalho, estava endividado, com sérias dificuldades financeiras. Além disso, sua saúde estava bastante debilitada. Ao trabalhar assuntos relacionados ao pai, teve uma crise de asma que lhe permitiu identificar e expressar um tremendo ódio. Ele tomou consciência de que sentia humilhado pela rejeição e falta de reconhecimento do pai. Num momento de intenso ódio, ele expressou para o pai: “eu vou afundar mesmo! Vou ficar cada vez pior e vou morrer, para que você possa depois morrer lentamente de culpa”. Era visível o prazer que ele tinha neste pacto de vingança.
O laco entre a corrente vital (prazer) e o sofrimento pode ser tão forte que algumas pessoas tem a sensação de que irão morrer se abrirem mão de certos padrões negativos. Um exemplo claro são os vícios, mas isso também pode manifestar na dificuldade de ganhar dinheiro ou de realizar-se profissionalmente. Isso ocorre porque a identificação com o determinado aspecto do eu inferior é tão forte, que a pessoa, inconscientemente, acredita ser aquele aspecto. Então, abrir mão desse determinado aspecto é o mesmo que morrer.
Como disse, conceitos como esses podem ser difícil compreensão, mas se puder abrir para eles, procurando ampliar sua percepção, certamente você começará a observar exemplos disso no seu próprio dia a dia. Para podermos ir além da destrutividade, se faz necessário compreender profundamente a sua natureza. Quanto menos a consciência sobre o desejo pelo negativo, maior será o desespero pelo positivo. Corremos aceleradamente atrás do positivo, mas nunca o alcançamos, porque há uma força contrária nos segurando. E quanto mais esforços colocarmos nessa busca, pior será nossa situação, porque vamos precisar lidar com mais frustração. O constante fracasso reforça nossa insegurança e nossa sensação de impotência diante da vida. Muitas vezes, simplesmente perdemos as esperanças e nos tornamos céticos em relação à possibilidade de existir felicidade.
Se desconhecemos a existência de um desejo pelo negativo dentro de nós mesmos, ou seja, se não reconhecemos que somos nós que escolhemos dizer “não” para a felicidade, inevitavelmente acabaremos acreditando que somos vítimas e tentaremos encontrar culpados. Todos nós fazemos isso, com maior ou menor frequência e intensidade, dependendo de nosso estado de consciência.
Estando dentro de um relacionamento, normalmente culpamos nosso parceiro ou parceira, mas se não estivermos nos relacionando, tentaremos colocar a culpa em alguém – em Deus, no vizinho, no coloca de trabalho, no governo, no mestre Espiritual. Não importa quem, qualquer um serve! Porque o que queremos é fugir do contato com os sentimentos negados, nascidos da dor original da separação de nossa espontaneidade. E são esses sentimentos que dão sustentação às repetições negativas.

Eu repito: se existe um situação negativa se repetindo em sua vida, é você quem escolhe estar nessa situação, por mais que tudo indique a você que a culpa é do outro. Você é o único responsável por tudo que acontece na sua vida. Portanto, sempre que você se perceber correndo freneticamente atrás de um objetivo que se distancia em vez de se aproximar, tornando-se quase impossível de ser alcançado, atente para a possibilidade haver um desejo deliberado pelo negativo agindo dentro de você. Enquanto não toma consciência desse desejo, você continua andando em círculos e alimentando a crença de que é uma vítima indefesa.


Trecho retirado do Livro: Amar e Ser Livre - Sri Prem Baba




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