5 de mar de 2014

Satsang com Sri Prem Baba, 29.01.11 - Índia 2010/2011

Satsang, 29.01.11 - Índia 2010/2011

Temas: A importância do silêncio durante e depois do darshan / As qualidades do discípulo / Jogo de acusações / Autoresponsabilidade.
Pergunta: Querido Prem Baba, pessoas que estão chegando não estão sabendo de manter o silêncio depois do satsang. Você pode mencionar isso novamente?
Prem Baba: O silencio é a eloqüência de Deus. Do silencio nasce tudo que há. Tudo aquilo que é belo e verdadeiro nasce do silencio.
O darshan é um fenômeno muito profundo. O que ocorre durante o nosso encontro é algo muito profundo. Uma transmissão está sendo feita. Há uma transmissão que está sendo feita através das palavras, uma transmissão que está sendo feita entre as palavras através do silencio e uma transmissão que é feita através do meu olhar e da minha presença. Quando o meu olhar pousa sobre você ou quando eu passo perto de você, eu estou vitalizando e transformando algumas coisas. Você está sendo transformado a cada encontro. Você está recebendo uma tremenda energia. Mas, se ao terminar o satsang você começar a conversar, essa energia será dissipada e retornará para mim. Se você quer aproveitar melhor a oportunidade de estar aqui nesse circulo mágico, você deve se recolher. Quanto menos você conversar, melhor para você. Quanto menos você ativar a sua mente, melhor para você. Eu sinto que, para que você desfrute da minha presença e possa de fato receber aquilo que estou oferecendo, você deve seguir a simples orientação de vir para o satsang e, durante as tardes, vir para a meditação e para os cânticos e o restante do tempo você faz um puja ou se dedica a prática do seu guru mantra, enquanto você desfruta da natureza ou mesmo na quietude do seu quarto. Isso é o suficiente. Eu não recomendo leituras, fique somente com você. Use a leitura somente se você estiver muito agitado; se estiver com a mente muito perturbada. Então você lê alguma coisa ou ouve uma boa música. Do contrário, não se distraia com absolutamente nada. Assim você vai aprofundando o seu trabalho e indo fundo em si mesmo. Assim você vai receber o que está destinado para você receber nessa temporada. Você vai podendo escolher o que vai receber: pouco ou muito. Você escolhe se quer um trabalho superficial, médio ou profundo. Isso vai ser determinado pela sua disposição de seguir as instruções.
Alguns chegam para mim e perguntam: “O que eu preciso fazer para me realizar?”; “Quais são as qualidades que eu preciso ter para isso?”. O que você precisa é simplesmente a disposição de seguir as instruções que lhe estão sendo recomendadas. Se você tem essa disposição, você tem a qualidade máxima do discípulo que é a receptividade. Eu costumo usar a analogia de um carpinteiro ou um escultor que tem uma peça de madeira bruta, ele pode fazer o que quiser com ela, mas se ele tem uma peça pronta como uma cadeira, o que ele vai poder fazer? Muito pouco.
O buscador espiritual se torna um discípulo quando tem essa qualidade de se entregar para que o mestre faça dele aquilo que ele for merecedor.
Eu sugiro para você, se estiver realmente querendo se aprofundar no estudo de si mesmo, que não faça silencio somente após o satsang, mas esteja em silencio sempre e somente abra a sua boca para aquilo que for realmente necessário. Estando num corpo que está submetido as leis da matéria, você precisa usar a fala para se comunicar, para se relacionar com o mundo e para realizar algumas coisas que são necessárias. Mas, utilize a fala somente para essas questões. Assim você vai poder aprofundar mais em si mesmo.
Eu sei que alguns de vocês tem a urgência de se relacionar, de fazer amizades, mas não se preocupe com isso, confie que eu vou lhe dar tudo que você precisa, na hora certa. Isso é um jogo divino. O nome do jogo é: “Siga o mestre”. É uma brincadeira. Faça sua parte que é seguir as instruções. Assim você vai descobrindo os mistérios do jogo. Permita-se fazer a sua parte; permita-se seguir as instruções. Cada qual tem necessidades variadas e precisa de respostas para algumas questões, mas todas as respostas vem de dentro de você. Eu quero que você possa se acostumar a ficar consigo mesmo. Para alguns de vocês pode ser desesperador ficar consigo mesmo e é por isso que você precisa se distrair e alimentar a mente através de conversas, leituras, e de uma série de outras coisas. Mas, isso é porque você não está suportando ficar consigo mesmo.
Aquilo que você realmente está necessitando não vem de fora, vem de dentro. Você vem até aqui e se relaciona comigo como se eu estivesse fora, mas isso é somente uma interpretação da mente. Eu não estou fora, eu sou o seu Ser interior, o seu Eu real e você vem aqui justamente para ter essa experiência com o seu Eu real. Mas, é claro que você, em algum momento, precisa se tornar independente, inclusive da minha forma. Em algum momento você vai precisar desapegar inclusive de mim. Isso vai acontecer quando você estiver realmente me sentindo dentro de você e para isso você vai ter que estar sozinho. Você tem que aprender a aturar a si próprio porque muitas vezes você não se atura. Você não suporta a si mesmo e se considera o seu pior inimigo. Ai é uma agitação muito grande e você tem que escapar disso porque são muitas vozes falando dentro de você. Uma fala uma coisa e outra contradiz o que a outra está falando. Porque de fato existe uma multidão interna. São muitos eu psicológicos falando ao mesmo tempo, mas para que esses eus comecem a se aquietar – o que é sinônimo de aquietar a mente - se faz necessário você experimentar ficar em silencio. E estando em silencio, você vai simplesmente se observar. Observe o que se passa assim como o céu observa as nuvens passarem. As nuvens estão sempre passando. As vezes elas são escuras, as vezes são claras, mas estão sempre passando, não importa de onde vem ou para onde vão. E, se por acaso você se perceber identificado com alguma nuvem e acreditando ser o pensamento, dialogando, atacando, defendendo e julgando internamente, você realiza o processo de autoinvestigação que já descrevi muitas vezes. Assim você vai devagarinho dissolvendo o circulo vicioso do amor imaturo e do sadomasoquismo. Devagar você vai tomando responsabilidade pelas repetições negativas que estão acontecendo na sua vida e vai assumindo responsabilidade inclusive pelo fato de estar insistindo naquela especifica repetição.
Quanto mais você está agitado, mais você está precisando olhar para alguns aspectos que não está com vontade de olhar. Tem algumas verdades sobre você mesmo que você não está querendo admitir.
Pergunta: Você falou da importância de remover o jogo de acusações. Esse jogo é o mesmo que jogar veneno? Em qual das matrizes está o jogo de acusações?
Prem Baba: Sim, o jogo de acusações é o mesmo que espargir veneno e talvez esse seja o mais insidioso e sutil jogo da psique humana. Uma pessoa acusa a outra; um partido político acusa o outro; um país acusa o outro. E acusa pelo fato de estar sofrendo; pelo fato de não estar se sentindo feliz. E o que você está precisando é justamente olhar para a sua responsabilidade pelo fato de estar infeliz. A única possibilidade de você evoluir é se transformando. Não espere evoluir querendo que o outro se transforme. Você vai desperdiçar a sua vida tentando modificar o outro e não vai mover um grau na sua própria evolução porque somente cada um se transforma a si mesmo. Eu tenho dito e repetido: não importa a montanha de defeitos do outro, se você se perturbou, olhe para o grão de defeito que há em você. Se você está perturbado, deixe o outro com a montanha de defeitos dele e trate de olhar para o grão de defeito em você que gerou essa perturbação. Por mais que o outro esteja errado, se você está num conflito é porque atraiu isso para si mesmo e precisa olhar para essa parte que atraiu o conflito. É assim que você evolui, tomando consciência dessa parte em você; essa parte que atraia a repetição negativa. Então, você trabalha para transformá-la. Assim você começa a evoluir e essa evolução, de alguma forma, também reflete no outro. Isso é um fenômeno natural, mas você não se transforma com a intenção de transformar o outro. Você transforma a si mesmo porque tomou consciência de que é o causador da sua própria infelicidade. E o que e entidade humana em evolução tem feito é acusar o outro pela sua incapacidade de ser infeliz. O que ela tem feito é acusar o outro pela sua incapacidade de amar. Você acusa o outro inclusive pela sua incapacidade de assumir as suas imperfeições. Esse é o caminho mais fácil, é o caminho pelo qual segue a maioria da humanidade. Por isso existe tanto sofrimento no mundo, porque todos estão espargindo veneno, acusação, culpa... Você está o tempo todo querendo que o outro se sinta culpado pelo fato de você não estar feliz. No mais profundo, o outro não tem nada haver com isso. É claro que, em algum nível, ele está envolvido com você e, no relacionamento, chega o momento em que cada um tem que assumir a sua responsabilidade. Isso faz parte do mistério da relação. Mas, os muros de separação somente caem quando você começa a assumir responsabilidade. Enquanto estiver acusando o outro, ou seja, espargindo veneno, você só aumenta a separação. Assim, o outro fica com mais raiva de você e vai contra-atacar. Esse é um fato bem básico da vida, preste atenção. Em qualquer relacionamento onde há um conflito, se você assume sua responsabilidade e se move em direção ao perdão, o outro desarma automaticamente. Mas, se você insiste em dizer que o outro está errado, ele vai te atacar. Eu não estou dizendo que, em um determinado estágio da evolução da consciência, você não possa fazer uma fotografia objetiva do outro. Se existe intimidade suficiente você não nega a sua responsabilidade e pode objetivamente mostrar ao outro os seus erros, se ele estiver aberto para receber. Eu estou falando de uma ação intima, onde há uma troca mútua de revelações. Mas, você somente pode se mover para essa intimidade (quando falo de intimidade, falo de transparência) quando evolui na autoresponsabilidade, ou seja, quando pode assumir que, na verdade você não está feliz porque tem algo errado com você. “Talvez o relacionamento não esteja dando certo porque eu não estou podendo amar”.
Praticamente o que você faz? Primeiro liberte-se da idéia de que o outro está errado. Eu volto a dizer que não quero que você se torne cego para os erros do outro. O que eu quero é que você ame o outro apesar dos seus defeitos porque você está aqui na Terra para aprender a fazer isso. Mas, quem pode transformar os defeitos dele é somente ele mesmo. Então, esqueça que ele é o culpado ou pelo menos não coloque foco nisso. Segundo: se liberte da raiva que fica pela idéia de que o outro é culpado. Se você estiver muito cheio de raiva, saia, grite um pouco, mas se liberte dessa raiva até que você possa colocar atenção em si mesmo, tentando descobrir qual é a sua responsabilidade no conflito por mais que o outro esteja errado. Se você está mal, se está sofrendo e está triste pelo fato do outro não estar te amando, qual é a sua responsabilidade?  Você pode usar a oração. “Eu quero ver; eu me comprometo a ver. Me mostre por mais que fira a minha vaidade”. Isso certamente vai ferir a sua vaidade porque quanto mais você está atuando no jogo de acusações, maior a sua vaidade. Só os outros tem falhas e você é o mais belo de todos. Espelho, espelho meu tem alguém mais belo do que eu? Essa é a síndrome da rainha vaidosa. Assim você vai deixando de espalhar veneno e ódio porque o jogo de acusações é o próprio pacto da vingança em si e a vingança é uma filha do ódio. O jogo de acusações nasce da matriz da ira que é a quinta matriz do eu inferior.
Quando você começa a silenciar e a seguir as instruções que lhe estão sendo sugeridas, ficando consigo mesmo, você vai começar a olhar para a sua vida, passando a limpo para identificar as áreas onde as coisas estão fluindo e as áreas onde as coisas não estão fluindo. Você precisa realmente identificar a sua responsabilidade.
Tudo isso vem para a superfície e é por isso que você evita o silencio e precisa se distrair tanto. Você está viciado nesse jogo; viciado em acusar o outro. Esses são os vícios mais profundos.
Para progredir na autotransformação, se faz necessário muita firmeza e determinação e nada de autopiedade. Mas, é necessária também muita compaixão com o pequeno eu. Você tem que aprender a rir das suas misérias, das suas imperfeições. O que dificulta é a vaidade, é o orgulho. Você não admite que, uma pessoa tão espiritualizada, possa ter um defeito como esse. Você que é uma pessoa tão evoluída e tão especial. Assim você amarga no sofrimento até admitir. O espelho está te mostrando. Quando você admite, o sofrimento desaparece instantaneamente e você começa a se transformar. Você somente transforma quando relaxa porque você não quer estar acima da imperfeição. Você aceita e devagarinho vai transformando e deixa de colocar atenção nela, assim ela deixa de receber alimento e desaparece. É simples.
Pergunta: Há alguns anos atrás eu tive uma situação de amigos envolvidos em relacionamentos muito destrutivos. As vezes com o guru, as vezes em relacionamento com parceiros. Eu fiquei o mais próximo que eu pude como amigo tentando fazê-los sair dessa destrutividade, mas no fim eu senti que não podia mais fazer nada, eu sai de perto. Isso é certo?
Prem Baba: Isso é certo, é perfeito para você. Cada um só pode dar o que tem. Você está dando o seu melhor, mas as vezes a pessoa não está aberta para receber porque ela precisa sofrer um pouco mais. Ela precisa cristalizar esse sofrimento e se você tenta retirar o sofrimento dela, ela fica com raiva de você porque ainda quer sofrer. Isso acontece entre nós. Muitas vezes eu quero tirar o sofrimento da pessoa e ela fica com raiva de mim. (risos) Você precisa respeitar o tempo dela, mas isso não impede que você reze por ela; Não impede que você entre em contato com o Ser dela; que você reze para que o Ser dela desperte. Você pode fazer isso: invocar o ser dela para que ele desperte. Para que ele possa se libertar do jogo do sofrimento.
Perguntar: Quando estivermos de volta nas nossas cidades, devemos continuar em silencio para manter a conexão?
Prem Baba: Você deve, ou melhor, você precisa disso. Caso contrário você é tragado pela sombra imediatamente. Se aqui, no circulo mágico, você ainda é tomado pelas forças contrárias, quanto mais na matriz. Você é sugado. Lá você precisa de ainda mais disciplina e firmeza para poder manter a conexão.
Pergunta: Se eu não estiver conseguindo ver a minha responsabilidade e perguntar para o outro, ele vai distorcer ou vai dizer a verdade?
Prem Baba: É uma boa pergunta. Se o outro estiver já comprometido com a verdade e estiver podendo manifestar a mais nobre e mais necessária manifestação do amor que é a honestidade, vale a pena você fazer essa pergunta para ele. Mas, se a pessoa ainda não estiver nesse estágio, ela pode aproveitar a situação para te malhar. Mas, sempre tem alguma verdade junto. O exercício é valido, principalmente se você está no ponto de poder fazer essa triagem. Virá um pouco de raiva, mas também virá a verdade. Você tira a raiva da pessoa de lado e fica com a verdade; com a fotografia que ele está tirando de você. Isso serve como uma pista para você encontrar em si mesmo essa responsabilidade porque você somente transforma quando percebe por si só. Do contrario você vai tentar fazer diferente e vai ficar no campo da mascara. Ainda não é real. Você somente transforma quando você mesmo pega o bicho pelo chifre.
Vamos trazer um exemplo prático: você está num relacionamento afetivo e o inferno da relação é porque você sente que o seu companheiro é agressivo, te desrespeita, te inferioriza, não te valoriza, te rejeita, te despreza... Pouco comum. (risos) Então você está perdido no jogo de acusações dizendo que ele não te ama, não te respeita, etc. Então, você começa a me ouvir: “O Prem Baba falou que, independentemente do erro do outro eu devo ter uma responsabilidade nisso”. Talvez o outro esteja correto. Vamos ceder para o benefício da dúvida. Tudo bem. Deixe o outro com os defeitos dele, com seu desprezo e agressividade. Deixe essa raiva esvaziar. Assim você vai sentir uma tristeza, mas essa tristeza não fere a sua alma. Nesse momento você vai começar a se perguntar: o que eu faço para repetir essa situação? Se o jogo de acusações estiver muito arraigado você vai continuar acusando o outro. Mas, mais uma vez lembre-se de mim e reflita: “Talvez eu seja responsável por isso. Vou me observar, vou rezar...”. Faça isso até que você comece a ver o que você faz (pode ser uma simples palavra, ou um comportamento) que ativa o pior do outro. Você faz isso porque está viciado. A sua energia sexual está casada com o sofrimento e a única maneira de sentir prazer é assim. Você precisa levar uns tapas para poder sentir prazer. Aos poucos você começa a ir mais fundo em você e percebe quem você está projetando nessa pessoa. Isso é uma projeção, uma repetição. Esse drama se repete porque sua mente está condicionada. Quando você se desidentifica do passado, isso deixa de acontecer. Mas, para você poder se desidentificar, é importante identificar a sua identificação. É importante que você perceba que está projetando o seu pai no seu namorado ou a sua mãe na sua namorada. Os pais negativos, claro. Porque você ainda não os perdoou.
Pergunta: Podemos estar projetando uma parte de nós mesmos?
Prem Baba: Sim.
Todo esse autoconhecimento vai emergindo naturalmente e vai sendo transformado. Eu estou lhe dando energia para que isso aconteça. Mas, você precisa fazer a sua parte que é receber. Se você se distrai com conversas desnecessárias, você sai do trabalho.
Vamos trabalhar então?
Bom trabalho a todos.
Vamos cantar.
(bhajans)
O caminho da devoção é o mais rápido. Tudo se dissolve no mestre. Ele dissolve seus karmas e te liberta. Para isso se faz necessário ter amor. O amor realiza esse milagre. Por isso que esse caminho é o mais rápido.
Que a cada dia possamos nos mover em direção a autoresponsabilidade e que jamais esqueçamos o valor do silencio.
Até o nosso próximo encontro.
NAMASTE