26 de fev de 2014

Satsang com Sri Prem Baba, 28.01.11 - Índia 2010/2011

Satsang, 28.01.11 - Índia 2010/2011

Temas: Apego e liberdade / O verdadeiro seva ou serviço desinteressado.
Pergunta: Amado Prem Baba, faz tempo que essa experiência tem se manifestado, mas aqui está mais intenso: Eu não sinto falta dos meus amigos e parentes. A única pessoa que sentia um laço de apego se desfez e todos os laços foram desfeitos. Sinto amor por essas pessoas, mas não preciso estar com elas. Posso seguir em frente? Isso é uma forma de desapego? Comente por favor.
Prem Baba: Se o seu coração está aberto podendo reverenciar cada um desses seres, então, sim, você está livre dos laços do apego e deve seguir nesse caminho. Com a graça de Deus você pode se libertar dos laços de apego e sair do universo pessoal para o universo impessoal. Assim, o seu amor não se dirige mais para uma pessoa ou duas ou três, mas sim para todos. Esse é o fenômeno que se dá quando os laços do apego são cortados. O amor que estava restringido para poucos passa a ser distribuído para todos. Você passa a enxergar toda a humanidade como sua família. Você tem o mesmo amor por todos. Isso não impede que você viva com as pessoas da sua família até porque quem se livrou dos laços do apego foi você, não eles. Talvez eles ainda precisem de você por perto em algumas situações e, por compaixão, você fica perto nessas circunstâncias. Mas, você fica por amor e não por obrigação porque a obrigação nasce do apego e o apego tem base no medo; medo da solidão. O medo de ficar sem a energia que vem do outro e que te dá uma referência de quem é você. As vezes até mesmo sendo uma relação bem negativa, onde você está recebendo o pior do outro e também dando o pior para o outro, você não consegue se imaginar sem essa pessoa. Não consegue se imaginar caminhando com as próprias pernas porque você não acredita que tem pernas. Você acredita ser aleijado, ou seja, você precisa de muletas para caminhar. Isso é um pesadelo. Você acredita ser um miserável que precisa reclamar e mendigar um olhar. Você precisa escravizar o outro. Você precisa que o outro faça do seu jeito e que ele te dê atenção na hora que você quer e do jeito que você quer, caso contrário, você entra em contato com esse vazio, com essa carência desesperadora. Por isso você se apega e o apego é uma muleta. Você faz do outro um escravo e você mesmo é se escraviza. Você não deixa o outro livre para não te amar e para ser ele mesmo. Ele precisa seguir um script, um roteiro que você determina. Essa é uma radiografia de um quadrante do inferno porque essa necessidade de forçar o outro a te amar puxa o pior dele para fora, assim como o seu pior. No mais profundo, todos querem ser livres e é um tremendo sofrimento você ser vitima das garras do apego. Ninguém ter estar apegado desse jeito por isso é um grande sofrimento. Todos querem ser livres. Mas, você está preso a necessidade de um olhar. Se o olhar não vem, o lindo dia se transforma no mais horrível dos dias.
Quando você me diz que os nós dos apegos estão cortados e que já pode se sustentar pelas suas próprias pernas e ainda assim manter o seu coração aberto, reverenciando a todos – você está só, mas ao mesmo tempo você esta unido a todos -, eu digo “Jay Guru”, “Jay Narayan” porque isso significa que você está se libertando do sofrimento e as portas do céu estão começando a se abrir para você. Você está começando a se libertar do passado porque quando você se livra do passado você pode ancorar a presença. E é quando você está presente você não sente falta. Nada falta quando você está presente.
As vezes você pode ter um sentimento de saudade, mas essa saudade não trás dor. Simplesmente é um fluxo de amor por alguém que passou por você; alguém que está longe ou que já foi. No inglês não tem uma palavra para traduzir essa palavra “saudade” porque é diferente de “sentir falta”. Na verdade, saudade é um fluxo de amor, uma lembrança amorosa, mas não tem a dor do apego. O sofrimento está intimamente relacionado ao apego. Quanto maior o apego, maior o sofrimento. Quanto menos apego, mais leve você se sente e, por conseqüência, se sente mais preenchido. Você sente contentamento. Essa palavra talvez traduza mais objetivamente a experiência do que você vive quando está desapegado. Você está inteiro. Essa é uma grande prova dessa universidade. Você só passa nessa prova quando está em condições de deixar o outro completamente livre, inclusive para não te amar. Você sai desse jogo de forçar o outro a fazer do seu jeito; você sai do jogo da carência. Essa é a maior vitória possível para a entidade humana em evolução. Ai você começa a sumir e se elevar no amor. O amor começa a crescer em você cada vez mais e ao invés de querer para si você simplesmente dá. Você se doa e faz da sua vida um seva. Seva é o serviço desinteressado. Você somente entra na esfera do seva quando você está livre do apego, se não você ainda está na esfera do interesse. Claro que, até um certo estágio da sua vida você faz dele um sadhana, uma prática espiritual de purificação, mas o seva somente vai ser completo se não houver interesse de receber a atenção do outro. Você não está mais apegado a fazer algo com a esperança de fazer algo em troca. Não é mais uma barganha, não é um comércio. É simplesmente um ato de amor, uma oração.
Aqui tem outra questão sobre isso: Se achar conveniente, fale sobre o seva, a questão de querer servir, mas fazer o que quer e como quer.
Para o sistema, esse seva tem valor, mas para a sua prática espiritual esse seva não tem valor. Para que o seva seja uma prática espiritual valorosa para a sua evolução espiritual, você tem que estar pronto para fazer qualquer coisa. Se faz necessário compreender o valor do sacrifício. O sacrifício consciente tem um tremendo poder purificador. Eu estou falando de austeridade inteligente. Você pode não satisfazer o seu ego, porque quer fazer aquilo para o que você tem talento com o objetivo de brilhar e receber aplausos, mas tudo bem, você está nessa oitava de trabalho. Quando é possível pode ajustar o talento com a necessidade, mas muitas vezes a necessidade urgente é que você faça algo que não te trás tanto prazer e não é tão agradável. Mas, esse seva tem um tremendo valor porque está purificando os seus samskaras. Então, quando você quer fazer do seva uma prática espiritual, você não escolhe e não determina o que fazer. Você faz aquilo que tem para ser feito. Você pode ser um bom médico, mas agora não tem necessidade de um médico, mas de um faxineiro para lavar o banheiro. Então, nesse momento é importante estar disponível para limpar o banheiro. Se você está disposto a desapegar da idéia de ser um médico e poder ser um bom faxineiro, então você está fazendo do seva uma prática espiritual porque você está desapegando de papéis, de crenças e idéias. Você está desapegando de autoimagens. Porque, de fato, quem é você? Você é um médico? Você é um faxineiro? Um jardineiro? Não. Você é uma manifestação do amor divino que está a serviço do grande mistério para realizar a sua obra de acordar esse mesmo amor em todos.
Se você evolui na habilidade de perceber a realidade - eu falo realidade espiritual, mas é um jogo com as palavras porque é redundante já que a realidade é espiritual; espiritualidade é a realidade – você compreende que aquilo que te impede de experienciar o êxtase de voar e de ser livre, são os apegos. Não somente o apego a pessoas e coisas, mas apego a idéias, imagens, formas de pensamento.
Então quando você diz que está indo da pequena família para a grande família e se sente preenchido mesmo estando só; quando você diz que sente que já está com o coração pleno sem a carência da atenção dos seus familiares e amigos, eu fico bem feliz porque significa que o meu trabalho está funcionando porque é para esse lugar que estou te levando. Eu estou te levando para experienciar a liberdade. Isso acontece dentro de você.
Uma vez eu li uma história de um mestre budista. Ele disse que um homem foi procurar Tilopa para ser iniciado. Nessa época, Tilopa vivia numa caverna. O buscador chegou sozinho e Tilopa estava de costas. Quando esse buscador chegou, Tilopa não se virou para ele. O homem falou: “Eu vim para ser iniciado por você”. Tilopa disse sem se virar: “Eu inicio pessoas e não multidões”. O homem disse: “Mas, eu estou sozinho”. Tilopa se virou e disse: “E essa multidão que tem dentro de você?” De fato, ele estava apegado a família que estava chorando por ele.
O desapego é algo orgânico e acontece de forma bem natural.
Eu quero completar a transmissão verbal lembrando a você da necessidade da atenção para não criar novos apegos. Porque, embora você esteja recebendo essa graça, o condicionamento reflexo ainda existe no sistema e nessa hora vai tentar armar uma armadilha. Ela vai tentar te arranjar uma namoradinha ou uma namoradinha. (risos) Fique atento. Você faz um esforço tremendo para desapegar, consegue chegar até aqui e, as vezes, num descuido, você cria novos apegos. Então, a partir de agora, se firme na sua presença, no seu sadhana e na conexão com o seu mestre. Assim vamos ascendendo aos planos celestiais.
Alguns se perguntam por que nesse estágio de evolução da consciência Maya nos oferece tais desafios? Seria uma brincadeira de mau gosto? Não, isso também é a manifestação da misericórdia divina. Isso é para confirmar se a sua renuncia é verdadeira; se o seu desapego é autentico e se o seu amor a Deus realmente já é puro.
Eu rezo para que você possa sustentar o desapego que está surgindo na sua vida.
Até o nosso próximo encontro. NAMASTE