Satsang com Sri Prem Baba, 26.01.11 - Índia 2010/2011

Satsang, 26.01.11 - Índia 2010/2011

Temas: As nove matrizes do eu inferior / Vergonha.
Pergunta: Amado Prem Baba, eu sinto vergonha de muitas coisas, mesmo de mostrar o meu amor ou a minha reverencia. Ou até mesmo de ser quem sou. Isso limita muito a minha vida. Pode falar sobre a vergonha? Ou sobre como integrá-la e transformá-la?
Prem Baba: A partir de um determinado estágio da evolução da consciência, o ego é visto como ilusório, mas até que se alcance esse estágio, o ego é percebido como algo bastante concreto. Principalmente o aspecto do ego que chamamos de eu inferior representado pelas nove matrizes: gula, preguiça, avareza, inveja, ira, orgulho, luxuria, medo e mentira. Muitas das transmissões espirituais do nosso tempo concentram-se em como acordar a sua natureza divina partindo do principio de que o ego é ilusório. Mas, o que fazer com as pessoas que não estão ainda nesse estágio e sentem as manifestações do eu inferior como algo tão concreto como pedra. Talvez possamos reformular a pergunta: O que fazer com a natureza sombria da personalidade? Você somente está pronto para considerar a sombra como uma ilusão depois que a identificou, elaborou e integrou. Ai sim você pode tratar qualquer manifestação do eu inferior como sendo ilusória. Inclusive o ego como um todo; a idéia de eu, é também percebido como somente uma ilusão. Mas, são muito raras as entidades que alcaçaram esse estágio. Porque, por mais que a gente queira ver a realidade como ilusória, ela existe e está em toda a parte. Quando utilizo a palavra maldade eu me refiro a essas tendências, essas matrizes do eu inferior que representam o nosso sistema de defesa. São nove tipos de venenos que segregamos quando nos sentimos ameaçados e machucados. E cada qual desses nove tipos de venenos tem subtipos que te intoxicam e intoxicam a quem aproxima; te machucam e machucam a quem te ameaça e aciona de alguma forma esse mecanismo de defesa. Por isso que eu chamo esse sistema de ciclo vicioso do sadomasoquismo. Se você olha de cima, você vê como ilusório, mas se ainda não pode olhar de cima, você percebe tudo isso como uma realidade bastante concreta da qual você é vitima e através da qual você faz vitimas. Muitas dessas transmissões espirituais tratam o mal como uma ilusão, mas de onde nasce o mal então? O que causa essa manifestação que faz com que as pessoas se machuquem, se desrespeitem e se maltratem? O nome que eu dou para isso é maldade, mas não estou fazendo um juízo de valor ou moral. Eu vejo simplesmente como um sistema de defesa que foi criado para proteger a entidade dos choques de exclusão, abandono, rejeição e humilhação. Quanto menos amado você foi, mais dor no seu sistema. Porque o desamor gera uma ferida no corpo emocional e essa ferida dói. E quanto maior a dor, mais fortalecido é o sistema de defesa e maior a sua identificação com o sistema de defesa, portanto, maior ou mais fortalecido o seu condicionamento. a sua mente está mais intensamente condicionada. Você acredita ser aquele mecanismo de defesa. Isso é identificação. Você se torna aquele pensamento. Aquilo se torna a sua identidade. Uma falsa identidade, mas é a identidade que você acredita durante certo estágio da sua evolução.
Como esses mecanismos de defesa ou matrizes do eu inferior de uma forma geral são moralmente julgadas e condenadas pela região, pela cultura e pela sociedade, você precisa usar uma mascara, um disfarce que encobre esse mecanismo de defesa. A máscara é um fingir ser. Ela não se compromete com a verdade em nenhum grau. Nem com a realidade relativa e transitória do eu inferior, nem com a verdade permanente do Ser. A máscara é uma solução que você encontrou para ser aceito no mundo.
Por exemplo, você foi machucado e ficou com raiva e agora tem sentimentos de vingança. Mas, como você aprendeu que é errado sentir isso, você finge ser uma pessoa pacífica, uma pessoa amorosa. A máscara é criada de acordo com o ambiente que ela vive porque ela é criada como uma solução para você receber amor e atenção. Se, em determinado ambiente, você sente que tem que ser fraco e submisso você vai criar essa máscara da submissão que é uma distorção do amor. Você não pode ser amoroso ainda, então você finge a amor. O amor fingido é submissão, é vitimismo. Assim é com a distorção do poder que gera a máscara da agressividade e da falsa autosuficiência. E também é assim com a distorção da serenidade que gera o retraimento, a indiferença.
Então, dependendo do ambiente, você cria uma dessas máscaras para sobreviver e forçar o outro a te dar atenção. É nesse estágio de identificação que se encontra a maior parte da humanidade. Quando a entidade humana começa a amadurecer, ela começa a tirar a máscara e começa a assumir a verdade relativa e transitória do eu inferior e compreende que ele está a serviço de protegê-la; e também compreende o que ela está protegendo. Ela compreende a dor que está por trás dessa matriz; identifica os sentimentos negados e suprimidos e, então, ela pode se libertar desse mecanismo de defesa porque agora ela já pode sentir a dor. Se ela pode sentir dor, ela pode sentir alegria também. Então, se ela se libertou do sistema de defesa, ela pode experimentar o Ser. Ela começa a perceber o ego como uma ilusão e vai trabalhar para ancorar a presença e não dar mais atenção para as vozes do eu inferior que ainda vão continuar falando por algum tempo devido ao reflexo condicionado. Mas, você continua não dando atenção para as vozes e firme na busca da realidade espiritual.
Entre os nove venenos, o sexto é um dos mais poderosos: o orgulho. Ele tem vários subtipos de venenos que eu costumo chamar de filhas do orgulho.
Eu tive um mestre que me iniciou nessa psicologia espiritual que dizia que o orgulho tinha cerca de 800 filhos. Eu nunca vi todos eles, mas eu vi que as principais filhas do orgulho são a autoimagem, vaidade e a vergonha. Ou seja, a vergonha é um dos principais venenos porque funciona como uma cerca elétrica que te separa do outro. Ela cria um isolamento. Se o objetivo da encarnação é o transito do estado de isolamento para o estado de união, a vergonha é realmente um veneno poderoso porque ela te mantém no estado de isolamento, aprisionado numa jaula.
Todas essas matrizes do eu inferior ou esses tipos de venenos vão se desenvolvendo progressivamente criando camadas e camadas. Então, é possível que hoje você tenha consciência da vergonha de algumas coisas bem especificas do seu dia a dia. Talvez você tenha vergonha do seu corpo, da sua aparência, de alguma incapacidade ou dificuldade sua. Mas, isso são camadas superficiais; são desdobramentos do veneno original. Para que você possa ir além dessa cerca é importante que você possa cortar o fio que está ligando-a na tomada. É importante resgatar a sua vergonha mais antiga, as camadas mais antigas de vergonha, aquelas que estão protegendo dos choques que você experienciou. Nesse estágio de evolução da consciência, não há como você evitar revisitar o passado porque você ainda tem vergonha dele. Isso significa que de fato o passado é presente. Você ainda não aceita algumas coisas da sua vida.
Você pode também fazer o caminho inverso que pode ser mais fácil: identificar as coisas das quais você tem vergonha e não aceita hoje até que devagar você vai trabalhando para aceitar e vai tirando uma camada após a outra até que você chega na camada primal que gerou a cisão no seu ser. Um bom exercício para você trabalhar a vergonha, são os relacionamentos porque é justamente na relação com o outro que a vergonha se manifesta. Há paginas no livro da sua vida que você não quer mostrar para ninguém e há páginas que você não quer mostrar para si mesmo. Há coisas que é muito difícil de você aceitar. E talvez até porque você viveu realmente grandes choques. Talvez você tenha sido muito humilhado e excluído por causa do que você não aceitar. Por isso, você precisa se esconder, mas saiba que enquanto você estiver escondendo, você está adiando a sua evolução.
Os relacionamentos de uma forma geral ajudam a fazer esse espelhamento. Quanto maior o isolamento, maior a separação. Quanto menor a vergonha, maior a intimidade porque é maior a transparência, maior a revelação de um para o outro e maior o grau de objetividade na comunicação. Objetividade significa a manifestação da verdade. Por conta das cercas você não consegue ser objetivo e acaba sendo muito subjetivo. Subjetividade significa meia verdade. Você vê tudo mais ou menos e se mostra mais ou menos. Você não consegue se mostrar. Você mostra apenas até uma certa página ou então sempre páginas diferentes do seu livro da vida. Porque quando chega na página onde está a dor guardada, você fecha. Ai a tendência é você procurar outras amizades, outros relacionamentos, outros amantes para mostrar somente o que você quer mostrar. As vezes isso dá muito trabalho. As vezes numa relação com um amigo de trabalho você começou a tocar naquela página, então você tem que mudar de emprego rapidamente antes que seja pego.
Mas, porque você foge? Porque você se sente correndo perigo; teme voltar a viver aquela experiência dolorosa do passado.
Só para dar um exemplo: uma moça tinha vergonha de falar em publico a ponto de gaguejar. Sempre que tinha duas ou mais pessoas por perto, ela começava a gaguejar. Nós fomos atrás desse trauma. Quando ela era criancinha de 6 ou 7 anos, ela foi fazer uma apresentação na escolha e ela errou e a professora e toda a classe a ridicularizou. Mas, há pessoas que passam por essas experiências, mas não desenvolvem um mecanismo de defesa tão intenso. Podemos entender isso de muitas maneiras. Isso varia desde o seu sistema psíquico espiritual até a possibilidade dessas imagens serem reencarnates.
Nesse exemplo que eu acabei de descrever, se a pessoa já tivesse uma marca de humilhação, vivendo uma experiência dessas novamente, ela teve que acordar uma defesa intensa que é essa tremenda vergonha. Ela não consegue falar quando tem mais de duas pessoas perto dela. Esse é um exemplo.
Nesse caso, vale a pena você trabalhar para identificar a fonte da sua vergonha começando a usar as ferramentas de autoinvestigação que já foram transmitidas para te ajudar a estabelecer a relação de causa e efeito até que você possa integrar esse mecanismo de defesa e se libertar da dor que está criando esse mecanismo. Com isso você poderá revelar o Ser que está por trás dessas capas. O seu ser está encoberto por essas capas. Por isso eu digo que o orgulho se transforma em humildade. A luxúria em devoção; o medo em confiança; a mentira em verdade e assim por diante. É uma reconversão de uma energia que foi distorcida por conta do impulso de desamor. Esse impulso foi o choque que gerou a distorção da energia porque quando você chegou aqui, você estava no estado original com todas as virtudes da alma estavam se manifestando plenamente, mas esses choques criaram essas distorções. E agora você precisa fazer o caminho das pedras. Você vai ter que ter essa paciência, essa firmeza, essa compaixão sempre sendo renovada para poder realizar essa transformação. Principalmente quando se tratam de choques muito profundos portanto as defesas são muito intensas e podem gerar um sentimento de cansaço e desesperança. Você talvez ache que nunca vai se livrar disso porque por mais que você tente, você está lá novamente repetindo aquele condicionamento. você acredita que está dando o seu melhor, mas de repetete esse padrão reaparece e rouba a sua energia novamente. É como o demônio Mahisha que aumenta sua força a cada gota de sangue que cai no chão. então durga tem que se transformar em kali. Quando você pensa que melhorou, logo aparece outro demônio. Mas, isso é para você desenvolver a sua paciência, a sua aceitação, a sua determinação e a sua compaixão inclusive com a sua própria sombra. O joog é perfeito. Quando você começa a se cansar e quer parar de jogar, logo vem o eu inferior querendo jogar novamente. Agora é outro aspecto, outra filha do orgulho, a vaidade que entrou pela porta dos fundos. Ela sempre quer estar acima porque não aceita as imperfeições. Você somente consegue manifestar a perfeição divina quando aceita as suas imperfeições humanas e não quer estar acima delas. Você trabalha para integrar, não para estar acima. Se você tenta estar acima, é a vaidade novamente. Você vai integrando todas essas partes da consciência e integrando tudo no Self, o grande centro da vida.
Esse é o significado da palavra individuação ou integração. As diversas partes da personalidade que estão fragmentados podem ser reintegrados.
Então, meus amados amigos, vamos renovar os nossos votos e continuar firme no propósito. Cada um com o seu sadhana. Cada qual com a sua devoção, mas sem deixar de autoinvestigar e autotransformar.
Eu rezo para que tenhamos a coragem de assumirmos tudo aquilo que somos e que possamos perdoar a quem nos ofendeu e assim poder agradecer o mistério da vida e poder experienciar a liberdade.
Até o nosso próximo encontro.
NAMASTE
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