3 de mai de 2013

Satsang do Sri Prem Baba, 11.01.11 - Índia 2010/2011


Satsang, 11.01.11 - Índia 2010/2011

Temas: Amizade como referência para os relacionamentos afetivos.
Pergunta: Nós não exigimos geralmente amor exclusivo das nossas amizades da forma que exigimos dos nossos amantes. Existe alguma coisa que podemos aprender nas nossas amizades que pode nos ajudar nos relacionamentos amorosos?
Prem Baba: Sim, há muito a aprender com as nossas amizades, pois elas podem refletir nos seus relacionamentos amorosos. A amizade sincera talvez seja um dos fenômenos mais belos desse planeta porque ela possibilita que você compartilhe o seu tesouro espiritual. Ela está lhe ensinando sobre cooperação, sobre generosidade, sobre humildade. Ela te ensina a enxergar o outro como uma parte de si mesmo. Ela te ensina a amar. Eu tenho dito que esse planeta é uma escola de amor consciente. Você encarna nesse plano para aprender a amar conscientemente; para lembrar-se que você é uma manifestação do amor divino. E você aprende a amar através dos relacionamentos. Primeiro, através das amizades, depois através dos relacionamentos amorosos e, mais além, através do relacionamento com o guru, com o divino. É claro que um estágio não tem que terminar para que o outro comece. Eles acontecem concomitantemente.
“Para sempre, para sempre, amigo do meu irmão, que ele é a minha luz nesse mundo de ilusão”. A amizade sincera é um fenômeno raro. É quando você pode reconhecer que o seu amigo é uma luz para você nesse mundo.
Quanto mais vinculado ou mais envolvido afetivamente você se torna com o seu amigo, mais facilmente você vai projetar o seu passado nele. A partir daí surgem os desafios mais profundos. Quando você se apaixona por uma pessoa, quando a força erótica é ativada na direção de alguém, o seu passado também é ativado e a projeção acontece naturalmente o que, no início, é bastante empolgante e nada parece ser mais importante ou poderoso do que essa experiência. É uma força tão intensa em direção a união e são tantos os sentimentos que esse encontro proporciona. É uma aventura indescritível. Mas, naturalmente, o passado é ativado e então surgem as dificuldades de sustentar o prazer positivamente orientado. Surge então a necessidade do amor exclusivo. As necessidades da sua criança ferida são projetadas no seu parceiro e você oscila constantemente entre o amor e o ódio, entre o estado de abertura e o estado de fechamento.
Mas, você tem uma referência que muitas vezes é esquecida que é justamente a referência da amizade. Muitos amantes deixam de ser amigos um do outro. Se eles deixam de ser amigos significa que inevitavelmente eles deixarão de ser amantes. Isso significa que passarão a ser marido e mulher. Isso significa que essa mulher vai ser a “sua” mulher e esse homem vai ser o “seu” homem. Esse seu e esse meu significa o fim do amor. Significa o fim daquela experiência tão indescritível que você sentiu no começo. Porque a ferida infantil que é ativada faz com que você queira receber atenção exclusiva, então você faz do outro um escravo. Você utiliza todo o seu repertório, todo o seu conhecimento, para forçar o outro a fazer do seu jeito. Você está tirando dele o combustível da vida que é a liberdade. Essa liberdade que foi justamente o que te encantou. Talvez até inconscientemente, mas o que te encantou foi o brilho que você viu no outro e esse brilho está intimamente relacionado com a liberdade que se manifesta em algum grau. Quanto maior a liberdade, maior o brilho. E, de alguma forma, você enxerga esse brilho e se encanta por ele. Mas, junto com a beleza e com os encantos dessa pessoa, ela carrega também algum aspecto que acorda o seu passado. Você acaba escolhendo essa pessoa justamente para reeditar o passado no momento presente, com o objetivo de transformá-lo. E quando isso acontece, o relacionamento entra numa noite escura. É claro que essa escuridão varia de acordo com a intensidade da dor e dos pontos de ódio e de medo que você carrega no seu sistema. Porque existe uma lei psíquica que determina que a ferida infantil será reeditada na vida adulta através da escolha dos relacionamentos. Ou seja, você sempre se apaixona também pelo seu passado. Porque, na verdade, você já está encantado com ele. Você está encantado com a sua história e é isso que faz você permanecer no vale do sofrimento, identificado com o seu nome e com a sua história. E de repente passa alguém carregando tudo aquilo. No começo você não sabe disso; você não sabe nem porque ela te encantou, mas tem uma força te atraindo. Depois de algum tempo, Eros começa a se recolher e você começa a perder o encantamento que ele promove. Esse encantamento vem da revelação de um para o outro. Você começa a se magoar por causa de uma coisa ou de outra e eros começa a se recolher. Esse já é o passado sendo recriado. As mágoas e os ressentimentos emergem por causa dele. Você já começou a ver seus pais negativos no outro. Você já começou a exigir que a pessoa seja de um jeito ou de outro. Aqueles defeitos que você achava até bonitinho e engraçadinho começam a te incomodar de um jeito insuportável. Nesse fechamento, nesse mergulho no porão do inconsciente, nessa floresta escura, é natural que você se esqueça da amizade. Você esquece que também é amigo daquela pessoa.
É importante essa referência da amizade. Em alguns casais a relação se tornou tão destrutiva que eu digo: Enquanto não forem amigos, vocês não poderão estar casados. É melhor separar e começar de novo. Em muitos casos as pessoas não querem separar porque ainda tem alguma coisa acontecendo. Pode ser simples de resolver. Cada um vai para uma casa e começam a ser amigos novamente. Porque a amizade é um valor que vem primeiro. Há muito para aprender com a amizade. É muito mais fácil você amar desinteressadamente quando você não está projetando o seu passado. Por isso a amizade é tão importante. É uma referência para você. Com um amigo você consegue ser altruísta de verdade. Você consegue realmente estender a mão, mas para o seu amante você não consegue dar nada a não ser que seja com algum interesse. Justamente porque existe a projeção. Na sua fantasia aquela pessoa se tornou sua propriedade e ela tem que atender as suas exigências. E quando as suas exigências não são atendidas você traz a tona os seus aspectos sombrios. Então, a primeira coisa que você perde quando as suas exigências não são atendias é a amizade. Essa é uma questão muito importante a ser compreendida. O quanto você é amigo do seu amante? O quanto que você torce por ele de verdade? O quanto você está querendo que ele seja feliz? O quanto você está dando o seu melhor para ele revelar o seu melhor? O quanto você está trabalhando para que ele seja completamente livre?
Tem outra pergunta sobre relacionamentos: Uma pessoa está bastante angustiada porque terminou uma relação e esta em outra relação, mas ainda sente muita culpa por ter terminado o relacionamento anterior, pois a pessoa que ela deixou está sofrendo muito e está culpando ela por isso.
Isso é um fenômeno natural quando a personalidade está identificada com a sua criança ferida. A tendência é culpar o outro por qualquer dificuldade. Você não precisa estar tão apaixonado para culpar o outro pela sua infelicidade. Claro que quanto mais envolvido, mais intensamente você vai culpar o outro pelo fato de você não estar feliz. Eu tenho dito que esse é o jogo mais destrutivo que permeia a nossa sociedade; o jogo de acusações. Você culpa o outro pela sua dificuldade em abrir o seu coração. Você está tendo dificuldade de amar; você está tendo dificuldade de irradiar a sua luz. Mas, como é muito difícil se autorresponsabilizar por isso, você culpa o outro. Essa é a distração básica do processo de autoconhecimento. As coisas não estão indo bem para você e tem que haver um culpado. A sua atenção vai para fora e você não olha para dentro e, assim, não transforma o que tem que ser transformado porque para isso você vai ter que olhar para coisas difíceis. Você vai ter que encarar aspectos de si mesmo que são difíceis de ser encarados. Requer muita humildade e aceitação para poder se ver diante do espelho e poder admitir as suas falhas, as suas imperfeições. Admitir que, se você não esta amando, o problema é seu, não do outro. Se você não está se sentindo pleno, se não tem contentamento e não está sentindo prazer, é porque tem alguma coisa errada com você. Você vai ter que olhar para isso que está errado e isso dá trabalho. Muitas vezes dói. É um processo árduo. Isso é um autosacrifício. É por isso que você evita esse confronto consigo mesmo, apontando o dedo para o outro. Assim é muito mais fácil. Se as coisas não estão indo bem, o culpado é o outro. “Não tenho dinheiro por causa do governo”. “Não encontro emprego porque tem problema lá fora”. Também é assim na relação a dois. Você não consegue expressar a sua luz e não consegue amar; muitas vezes é estúpido, violento, ignorante, indiferente... e isso faz com que você não experiencie a alegria do amor. Isso faz com que você sofra e culpe o outro. Isso é natural. Você se separou da pessoa, mas ninguém quer ser abandonado. Abandonar é fácil, mas ser abandonado não é fácil. Não é tão fácil abandonar para alguns, mas alguns fazem isso facilmente. Porém, ninguém da conta de ser abandonado. A pessoa vai sofrer mesmo e ela vai te acusar, vai te culpar. A questão é: porque você se sente acusado? É isso que você precisa olhar: o que ainda não olhou na relação. Se você esta se sentindo tão culpado significa que essa relação de amor ainda não terminou por completo. Você pode ter ido para outra relação e é muito natural que isso aconteça, mas a relação anterior continua aberta. Ela está aberta justamente porque você não chegou na amizade. O amor ainda não está fluindo livremente. Ainda existe projeção. Você acusa e se sente acusado. Isso ainda é projeção. Como eu tenho dito isso não depende do erro do outro. O outro pode estar errado mesmo. Ele pode estar errado em te acusar. Ele acusa porque é imaturo e uma pessoa imatura acusa mesmo. A questão é: porque você se sente acusado? Tem material para você estudar. Essa relação ainda tem alguma coisa para te ensinar. Por exemplo, porque você não pode desagradar? Se já está claro que não quer mais essa pessoa, porque você não pode suportar o fato dela estar sofrendo porque você não querer mais ela? Ela vai sofrer mesmo. Ela quer você e você não quer ela. Porque você tem que ser tão bonzinho assim? Talvez haja alguma maldade por trás disso. Por trás de todo o agradador tem uma maldade. Isso significa que você vai ter que olhar novamente para essa relação porque a conta ainda está aberta. As vezes a relação termina para um e não termina para o outro. Termina para você quando, de fato, chegou na amizade. Eros cumpriu sua missão e realmente se transformou em amor. Eros tem essa missão que é transformar, atingir o núcleo do coração. Isso somente é possível quando a sombra é transformada, quando você se liberta do passado e deixa de projetá-lo no outro. Quando isso acontece não há porque forçar o outro a fazer do seu jeito. Você abandona toda a necessidade de ser amado exclusivamente por ele.  Você somente vai forçar o outro enquanto ainda houver essa força erótica agindo. É claro que, nas amizades, também há força erótica, mas num grau que não faz você ser tão contundente na sua exigência. Quanto mais exigente você é em relação a outra pessoa, maior a sua projeção e mais material de escola tem ali. Você vai ter que utilizar esse material a favor da sua evolução. A referência de uma amizade sincera, onde você pode ser transparente, pode se revelar, receber a revelação do outro e onde você deixa o outro completamente livre, inclusive para não te amar é uma boa referência. Enquanto não estiver nesse estágio, você deve trabalhar para purificar o seu sistema. Deve trabalhar para curar as feridas antigas que ainda estão presentes. Enquanto não estiver amando desinteressadamente você deve trabalhar na esfera de cura. Você não deve descartar esse material que emerge e te dá uma pista do que precisa ser transformado.
Se a vida é uma escola, o relacionamento é a universidade. Eu quero dizer todas as relações porque todas elas estão te ensinando a amar, a respeitar e a ser integro. Elas estão te ajudando a ser completamente livre e a amar desinteressadamente. Eu costumo dizer que, tirando todo o romantismo, o relacionamento é material de escola. E quanto mais intensa é a relação, ou seja, quanto mais envolvido você está, melhor é o material de escola. Esse material de escola tem mais valor e vai te ajudar mais porque não vai deixar passar os seus autoenganos. Toda a sua mentira vem à tona numa relação assim.
Eu não me esqueço do depoimento de uma pessoa que, em determinado momento do processo, sentiu-se muito tentada a parar porque achou que estava muito difícil. Ela disse assim: “Eu me considerava uma pessoa boa. Eu era um instrutor de espiritualidade, eu ajudava tanta gente, eu dava aulas tão bonitas e as pessoas ficavam encantadas comigo. Mas, de repente eu comecei a me olhar e comecei a ver que eu maltrato a minha mulher e os meus filhos. Muitas vezes eu não sou integro com os meus amigos. Eu comecei a ver tanta incoerência que eu quis sair correndo”. Eu falei parabéns, agora você começou o seu trabalho. Agora você deu um passo no caminho da verdade. Não tem melhor instrumento de aferição do que os seus relacionamentos. Quer saber onde você está é só olhar para as suas relações. Você pode usar a máscara que for, mas na relação ela vai cair. E você precisa ter disposição de se encarar. É fácil? Não.
Ainda me lembrando dessa pessoa que trouxe essa revelação para mim eu sinto que essa experiência é muito forte. É uma tremenda crise na vida da pessoa. Essa tomada de consciência da sua hipocrisia é muito difícil. É um balanço na sua vida. Você não passa por isso facilmente. Você tem que olhar onde tem mentira e ajustar. Esse é o primeiro passo no caminho da verdade: admitir onde tem mentira. Não é ainda a verdade eterna, mas é uma verdade relativa. Porém, já é um passo em direção a verdade eterna. Admitir que você realmente maltrata quem está com você.
Muitas vezes o maltrato é somente uma indiferença porque você sabe que essa atitude mexe com a pessoa. É essa indiferença que faz com que ela entre no inferno. É isso que faz com que você chupe de canudinho a energia dela. Esse é o primeiro passo e o segundo é reconhecer porque você faz isso. Quem é essa pessoa para você? Quem você está vendo nela? Porque você tem que usar a maldade para tirar dela alguma coisa? Você tem que estar disposto a ver. Essa é uma chave muito importante. Você está num conflito, está perturbado? Queira ver a sua responsabilidade nisso. Qual é a sua responsabilidade pelo fato de não estar se sentindo bem? “Eu estou me sentindo culpado, triste, etc.” Mas, por quê? Qual é a sua responsabilidade nisso (independentemente do erro do outro)? Se o outro se sentiu abandonado, é claro que ele vai te atacar.
Muitas vezes você tem que interromper uma relação no meio, pois não dá para esperar que a relação chegue ao estágio onde os dois estejam na luz e no amor maduro. Porque simplesmente a relação se tornou tão destrutiva que você não tem outro jeito a não ser interromper. E quem interrompe é a pessoa que está mais madura, ou seja, aquela que assume mais responsabilidade. Você sabe que o outro vai te atacar. Mas, você precisa ver porque está sentindo tanta culpa.
Outra forma de separar é quando você também já foi além da projeção. O seu coração já se abriu e você está na amizade. Você não está mais projetando o seu passado, a paixão foi embora e agora o outro é seu amigo, seu irmão. Mas, talvez o outro não queira ser seu irmão e ainda queira ser seu amante porque acabou para você e não para ele. Então ele vai continuar te forçando para você amá-lo. Mas, se você realmente já transcendeu você vai acolher os ataques do outro e aceitar que é natural que ele fique com raiva de você. Mas, se você não suporta a raiva do outro, preste atenção para ver se não está se enganando. Será que acabou mesmo ou você está fugindo de alguma coisa?
Comentário: Eu vejo que muitas vezes a pessoa começa um relacionamento antes de terminar outro para poder machucar o outro pelo fato de não estar se sentindo amado.
Prem Baba: Exatamente, isso é muito comum. É um dos jogos mais corriqueiros da nossa vida e o preço dessa escolha é alto. Porque além de você estar preso num pacto de vingança, você ainda envolve o outro nisso. Mas, é claro que o outro entrou porque quis, é claro que ele não é inocente. O outro entrou porque estava vibrando nessa freqüência, também está vibrando no sadomasoquismo.
Comentário: É por isso que a culpa “gruda”, não é?
Prem Baba: Sim, ela gruda. E a culpa vai fazer um grande estrago. Ela é um veneno poderoso. Ela vai matando tudo que é vivo. Vai destruindo tudo. O objetivo dela é destruir a felicidade. Felicidade é vida, então a culpa é um veneno que mata a vida. Primeiro ela destrói fora, depois dentro.
Esse é um assunto muito vasto. Eu poderia ficar muito tempo falando sobre isso e ainda não o esgotaria. Criar união é o seu maior desafio. Criar união em todos os aspectos. Nós podemos resumir a jornada humana como o trânsito do estado de separação para o estado de união. O melhor instrumento que você tem a seu favor para te ajudar nesse processo é o relacionamento de uma forma geral. Todos os tipos de relacionamentos. Hoje nós falamos um pouco sobre a amizade, sobre o relacionamento afetivo-sexual e ontem falamos sobre a relação com o mestre espiritual, com Deus. Mas, podemos também falar sobre a relação com a natureza, com os animais, com o dinheiro, com a comida... Tudo com que você se relaciona é material de escola. Como você se relaciona com o outro? Essa é a sua universidade.
Aproveite para descobrir onde você está nessa escola. Qual é a matéria que você está tendo dificuldade? Qual o tipo de relacionamento que você está com dificuldade? Qual é o relacionamento que acorda em você o jogo de acusações? Qual o relacionamento que acorda em você o sentimento de culpa? Nele está o seu material de escola.
Nós estamos falando sobre o processo de autoinvestigação. Use esse material para se autoconhecer. Entenda isso como um presente de Deus para você dar mais um passo em direção a autorealização, para a revelação da verdade que é o seu Eu real.
Não pense muito, apenas sinta: Onde é que eu tenho um relacionamento negativo?
Eu sei que não vou conseguir evitar que alguns de vocês continuem pensando, mas tudo bem. (risos)
Que você possa reconhecer o valor de uma amizade sincera.
Até o nosso próximo encontro.
NAMASTE

TEXTO RETIRADO DO SITE: http://www.prembaba.org/